quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

3.4 RECURSOS SUBSTITUTIVOS


3.4 RECURSOS SUBSTITUTIVOS
A divulgação das notícias denunciando os abusos cometidos pelos vivisseccionistas acarretou o surgimento de diversas sociedades protetoras dos animais e a necessidade legal de promover a substituição da experimentação animal por métodos alternativos de pesquisa (GREIF e TRÉZ, 2000; LEVAI, 2001).
Diversos antivivisseccionistas criticam o termo “alternativa” à experimentação animal, dentre eles o Dr. Pietro Croce, anátomo-patologista e livre docente da Universidade de Milão; para eles, a designação “metodologia alternativa” leva a pensar que o método que utiliza animais seja o padrão e correto, podendo ser “alternado” somente quando possível, quando, na verdade, os “métodos alternativos” seriam os verdadeiros métodos científicos, em oposição à vivissecção, um método errôneo de experimentação. Ainda assim, por comodidade, a maioria dos antivivisseccionistas utiliza o termo criticado, embora saiba que a utilização da expressão “método substitutivo” seja a ideal, uma vez que a alternância sugere uma escolha, e a substituição, não (GREIF e TRÉZ, 2000).
Na verdade, não há uma única alternativa de escolha para que se substituam os animais no ensino de técnica operatória, por exemplo, e sim uma interação de alternativas, sendo que umas atuam como principais e outras como coadjuvantes. A principal alternativa resume-se no seguinte processo: com um período de residência maior do que o usual, o acadêmico de medicina segue tendo contato com a realidade dos hospitais, inicialmente observando as cirurgias realizadas em pacientes que realmente necessitam de cirurgia e, com o tempo, gradualmente, realizando intervenções cirúrgicas das mais simples às mais complexas, sempre sob a supervisão de médicos experientes (TRÉZ, 2009).
Além de aprender gradativamente técnicas cirúrgicas em pacientes reais, e humanos, o estudante aprende também a lidar com os sentimentos que envolvem qualquer intervenção cirúrgica, como medo, insegurança e desconforto, o que possibilita a sua sensibilização diante de todo o quadro clínico que cerceia uma cirurgia. Este método também possibilita a observação da recuperação dos pacientes, expondo o estudante aos seus estados psicológicos e fisiológicos, e, desta forma, humanizando-o (TRÉZ, 2009).
Deste modo, é visto que os pacientes não são cobaias, como procuram defender-se retoricamente os que defendem a experimentação animal. Todo este procedimento é realizado com respeito à vida, procurando ajudar o paciente, o que é ético. Outra vantagem deste método é o essencial contato com o tecido vivo humano que o estudante deve ter, e não de um outro animal (TRÉZ, 2009). 
Todo este conhecimento prático é reforçado com a utilização paralela de métodos não-animais de aprendizado que podem ser chamados de “auxiliares”, como a realidade virtual, a microcirurgia em placentas, o cultivo de tecidos e órgãos humanos, as técnicas de diagnóstico por imagem não-invasivas, as simulações em computadores, os modelos matemáticos, as maquetes humanas, os estudos em cadáveres e assim por diante (TRÉZ, 2009).
Na Inglaterra, por exemplo, desde 1876 as universidades não utilizam mais animais para a formação dos seus médicos, veterinários e biólogos, e nos Estados Unidos da América, mais de 70% das faculdades de medicina não incluem animais vivos nas suas atividades, sendo que a porcentagem alemã é ainda mais alta (LEVAI, 2004).
Nestas nações, existe um programa educativo de doação de cadáveres de animais mortos por causas naturais às universidades. Este programa consiste em informar aos donos de animais que faleceram as vantagens da doação destes animais para estudos, sobretudo em faculdades de medicina veterinária.  A principal vantagem, sem dúvida, é a de que estes cadáveres evitam que um animal sadio seja sacrificado para experimentos. Ademais, um programa assim contribui para a formação de profissionais mais sensíveis, já que os estudantes realizam procedimentos em animais que tiveram donos que se preocupavam com eles, ao contrário de animais provenientes de abrigos ou de biotérios, que, infelizmente, são tratados como mercadorias descartáveis (KIGHT, 2002).
A educação humanitária no ensino de ciências da saúde também pode ser encontrada quando (TRÉZ, 2009):
- A liberdade de escolha e a opinião dos estudantes são respeitadas.
- Animais vivos não são submetidos a sofrimentos ou mortos em praticas de cunho didático.
- Os objetivos educacionais são obtidos utilizando-se abordagens alternativas.
- A educação estimula a visão holística e o respeito pela vida.
A adoção de métodos alternativos mantém a educação em sincronia com o progresso tecnológico e promove o pensamento ético. Ademais, com várias alternativas, os estudantes podem aprender no seu próprio ritmo, com a vantagem de estar em um ambiente saudável de aprendizagem, com o mínimo de conflitos negativos, distrações e complicações. Muitos métodos humanitários de ensino são simples, previsíveis e repetitíveis, de modo que princípios experimentais e objetivos podem ser aprendidos e assimilados com muita eficiência (TRÉZ, 2009).
Além do mais, estudos publicados que têm avaliado a eficiência dos métodos alternativos têm revelado que os estudantes aprendem tão bem quanto, e em alguns casos de forma ainda melhor, do que os estudantes que utilizam o método tradicional de experimentação animal (TRÉZ, 2009).
Os recursos substitutivos à experimentação animal trazem vantagens econômicas também: muitas alternativas são baratas quando comparadas ao gasto com a compra e a manutenção de animais; outras alternativas requerem um gasto inicial considerável, apresentando, contudo, benefícios do investimento imediatamente e perspectivas de cobertura dos custos a longo prazo, pois poupam o gasto exigido com o uso de animais (TRÉZ, 2009).
Exemplos de recursos substitutivos atualmente disponíveis seguem relacionados a seguir (TRÉZ, 2009):
- Modelos e Simuladores:
Modelos e simuladores mecânicos são extremamente úteis ao estudo da anatomia, da fisiologia e da cirurgia. Eles variam de modelos simples e baratos a equipamentos computadorizados. Modelos mecânicos como simuladores de circulação sanguínea oferecem uma excelente visão dos processos fisiológicos, e simuladores de pacientes ligados a computadores e manequins, assim como controles sofisticados de operações, estão substituindo cada vez mais a utilização de animais no treinamento médico.
- Filmes e Vídeos Interativos:
Filmes são baratos, de fácil obtenção, duradouros e de fácil utilização. Eles oferecem as vantagens da repetição, da utilização da câmera lenta e da exibição detalhada das imagens em closes. Ademais, a adição de gráficos, animações e elementos interativos podem potencializar o seu valor educativo.
- Simulações Computadorizadas e Realidade Virtual:
Alternativas computadorizadas podem ser altamente interativas e incorporar outros meios, como filmes. Além disto, o desenvolvimento tecnológico no campo da realidade virtual têm possibilitado a utilização de técnicas de imagem de alta qualidade no trabalho de diagnóstico e tratamento de doenças na medicina humana.
- Auto-Experimentação:
Estudantes da área da saúde de muitas universidades participam ativamente em práticas cuidadosamente supervisionadas em que eles próprios são amostras para o estudo de fisiologia, bioquímica e outras disciplinas, em experiências inócuas como ingerir substâncias como café ou açúcar, administrar diuréticos e utilizar eletrodos externos para a mensuração da velocidade de sinais nervosos.
- Uso Responsável de Animais:
Para turmas que necessitam de experiências práticas com animais, como as de medicina veterinária, tais exigências podem ser supridas de diversas maneiras humanitárias. Animais que morreram naturalmente ou que sofreram eutanásia por motivos clínicos podem ser direcionados para o estudo de anatomia e cirurgia. Já para os casos em que o treino em animais vivos torna-se necessário, a prática clínica é o método mais recomendado; em alguns cursos de veterinária, por exemplo, a habilidade cirúrgica é aprendida pelos estudantes através de operações em pacientes animais cuidadosamente supervisionadas. Outra alternativa para o estudo de anatomia e técnica operatória em animais é o convênio de faculdades com fazendas ou clínicas veterinárias, onde animais mortos podem ser adquiridos para estudo posterior.
- Estudos de Campo e de Observação:
Animais selvagens e domésticos oferecem oportunidades para o estudo prático e não invasivo nos ramos da zoologia, anatomia, fisiologia, etologia, epidemiologia e ecologia, sendo que tais observações de campo estimulam os estudantes a reconhecerem as suas responsabilidades sociais e ambientais.
- Experiências “In Vitro”:
A maioria dos experimentos bioquímicos envolvendo tecido animal pode ser adequadamente substituída por cultura de tecidos. Outros métodos “in vitro”, particularmente em toxicologia, podem utilizar a cultura de microorganismos e células.
- Serviço de Empréstimo de Alternativas:
O sistema de empréstimo de alternativas da INTERNICHE (www.internichebrasil.org.br) oferece uma extensa coleção de CD-ROMs, vídeos, modelos e manequins. Professores e estudantes de qualquer parte do mundo podem adquirir estes itens através deste sistema de empréstimo.
As vantagens advindas do uso destas alternativas são muitas (TRÉZ, 2009):
- Economia de tempo: a preparação dos procedimentos da experimentação animal costuma ser extremamente demorada.
- Possibilidade de melhor aprendizado: as simulações interativas permitem que o estudante possa repetir exaustivamente passos ou estágios do experimento, o que não é possível nos experimentos “in vivo”. Além do que, esta tecnologia não cria a dependência do laboratório e de pessoal especializado, permitindo que o estudo seja realizado até mesmo em casa.
- Proporcionar economia: as alternativas são financeiramente viáveis, ao contrário do que acredita o senso comum, posto que a utilização de animais implica em grandes gastos com aquisição e manutenção e os recursos substitutivos possuem um tempo de vida muitas vezes indeterminado, não sendo descartáveis como os animais usados.
- Comprometimento ético: o oferecimento de alternativas respeita os princípios éticos, morais e/ou religiosos dos indivíduos que se opõem à experimentação animal.
            No campo acadêmico e nos centros de pesquisa em geral, costuma preponderar uma inércia que precisa ser interrompida com a adoção dos diversos métodos alternativos já disponíveis, dispensando-se então toda e qualquer forma de experimentação animal, tanto nas instituições de ensino quanto na indústria (LEVAI, 2004).
Abaixo encontra-se uma outra relação exemplificativa com recursos alternativos à experimentação animal que podem perfeitamente ajustar-se às exigências dos legisladores ambientais e ser aplicados no campo do ensino, no campo da pesquisa e também no campo industrial (LEVAI, 2004):
            1) Culturas celulares, teciduais e de órgãos para utilização na genética, na microbiologia, na bioquímica, na imunologia, na farmacologia, na radiação, na toxicologia e no desenvolvimento de vacinas e pesquisas sobre vírus e doenças como o câncer.
            2) A cromatografia e a espectrometria de massa são técnicas que permitem, sem invasão, a identificação e a atuação de compostos químicos no organismo.
3) A farmacologia e a mecânica quânticas avaliam o metabolismo dos medicamentos no organismo.
            4) Os estudos epidemiológicos permitem o desenvolvimento da medicina preventiva baseando-se em dados comparativos e na observação dos processos das doenças.
            5) Os estudos clínicos, por sua vez, oferecem resultados reais de grande importância sobre as enfermidades de diferentes populações, analisados à luz da estatística.
            6) As biópsias e as necrópsias servem para demonstrar a ação direta de moléstias no organismo.
7) Simulações computadorizadas caracterizando sistemas virtuais servem para substituir a vivissecção de animais.
            8) Modelos matemáticos funcionam como tradutores analíticos dos processos que transcorrem nos organismos vivos.
            9) As culturas de bactérias e de protozoários funcionam como alternativas para testes de câncer utilizando animais e para o preparo de antibióticos.
            10) A utilização de placentas e cordões umbilicais servem para treinamento de técnicas cirúrgicas e para testes toxicológicos.
            11) O teste CAME utiliza a membrana corialantóide dos ovos de galinha para testar a toxicidade de substâncias.
A principal razão que conduz à certeza de que a experimentação animal é o método-padrão para investigações científicas advém da limitação dos cientistas ao adotarem-na como única maneira de resolver problemas específicos sem questionar a sua ética e a sua eficácia (CHAUI, 2004).
Desta forma, deve-se lembrar do aforismo “Timeo hominem unius libri” (Temei o homem de um único livro) ao recomendar à comunidade científica que não se acomode aos primeiros impasses e ignore o progresso e a evolução do saber (SCHANAIDER e SILVA, 2004).

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