3.4 RECURSOS SUBSTITUTIVOS
A
divulgação das notícias denunciando os abusos cometidos pelos vivisseccionistas
acarretou o surgimento de diversas sociedades protetoras dos animais e a
necessidade legal de promover a substituição da experimentação animal por
métodos alternativos de pesquisa (GREIF e TRÉZ, 2000; LEVAI, 2001).
Diversos antivivisseccionistas criticam o termo “alternativa”
à experimentação animal, dentre eles o Dr. Pietro Croce, anátomo-patologista e
livre docente da Universidade de Milão; para eles, a designação “metodologia
alternativa” leva a pensar que o método que utiliza animais seja o padrão e
correto, podendo ser “alternado” somente quando possível, quando, na verdade,
os “métodos alternativos” seriam os verdadeiros métodos científicos, em
oposição à vivissecção, um método errôneo de experimentação. Ainda assim, por
comodidade, a maioria dos antivivisseccionistas utiliza o termo criticado,
embora saiba que a utilização da expressão “método substitutivo” seja a ideal,
uma vez que a alternância sugere uma escolha, e a substituição, não (GREIF e
TRÉZ, 2000).
Na verdade, não há uma única alternativa de escolha para que
se substituam os animais no ensino de técnica operatória, por exemplo, e sim
uma interação de alternativas, sendo que umas atuam como principais e outras
como coadjuvantes. A principal alternativa resume-se no seguinte processo: com
um período de residência maior do que o usual, o acadêmico de medicina segue
tendo contato com a realidade dos hospitais, inicialmente observando as
cirurgias realizadas em pacientes que realmente necessitam de cirurgia e, com o
tempo, gradualmente, realizando intervenções cirúrgicas das mais simples às
mais complexas, sempre sob a supervisão de médicos experientes (TRÉZ, 2009).
Além de aprender gradativamente técnicas cirúrgicas em
pacientes reais, e humanos, o estudante aprende também a lidar com os
sentimentos que envolvem qualquer intervenção cirúrgica, como medo, insegurança
e desconforto, o que possibilita a sua sensibilização diante de todo o quadro
clínico que cerceia uma cirurgia. Este método também possibilita a observação
da recuperação dos pacientes, expondo o estudante aos seus estados psicológicos
e fisiológicos, e, desta forma, humanizando-o (TRÉZ, 2009).
Deste modo, é visto que os pacientes não são cobaias, como
procuram defender-se retoricamente os que defendem a experimentação animal.
Todo este procedimento é realizado com respeito à vida, procurando ajudar o
paciente, o que é ético. Outra vantagem deste método é o essencial contato com
o tecido vivo humano que o estudante deve ter, e não de um outro animal (TRÉZ, 2009).
Todo este conhecimento prático é
reforçado com a utilização paralela de métodos não-animais de aprendizado que
podem ser chamados de “auxiliares”, como a realidade virtual, a microcirurgia
em placentas, o cultivo de tecidos e órgãos humanos, as técnicas de diagnóstico
por imagem não-invasivas, as simulações em computadores, os modelos
matemáticos, as maquetes humanas, os estudos em cadáveres e assim por diante (TRÉZ, 2009).
Na Inglaterra, por exemplo,
desde 1876 as universidades não utilizam mais animais para a formação dos seus
médicos, veterinários e biólogos, e nos Estados Unidos da América, mais de 70%
das faculdades de medicina não incluem animais vivos nas suas atividades, sendo
que a porcentagem alemã é ainda mais alta (LEVAI, 2004).
Nestas nações, existe um programa
educativo de doação de cadáveres de animais mortos por causas naturais às
universidades. Este programa consiste em informar aos donos de animais que
faleceram as vantagens da doação destes animais para estudos, sobretudo em
faculdades de medicina veterinária. A
principal vantagem, sem dúvida, é a de que estes cadáveres evitam que um animal
sadio seja sacrificado para experimentos. Ademais, um programa assim contribui
para a formação de profissionais mais sensíveis, já que os estudantes realizam
procedimentos em animais que tiveram donos que se preocupavam com eles, ao
contrário de animais provenientes de abrigos ou de biotérios, que,
infelizmente, são tratados como mercadorias descartáveis (KIGHT, 2002).
A educação humanitária no ensino de ciências da saúde também pode ser
encontrada quando (TRÉZ, 2009):
- A liberdade de escolha e a opinião dos estudantes são
respeitadas.
- Animais vivos não são submetidos
a sofrimentos ou mortos em praticas de cunho didático.
- Os objetivos educacionais são
obtidos utilizando-se abordagens alternativas.
- A educação estimula a visão holística e o respeito pela
vida.
A adoção de
métodos alternativos mantém a educação em sincronia com o progresso tecnológico
e promove o pensamento ético. Ademais, com várias alternativas, os estudantes
podem aprender no seu próprio ritmo, com a vantagem de estar em um ambiente
saudável de aprendizagem, com o mínimo de conflitos negativos, distrações e
complicações. Muitos métodos humanitários de ensino são simples, previsíveis e
repetitíveis, de modo que princípios experimentais e objetivos podem ser
aprendidos e assimilados com muita eficiência (TRÉZ, 2009).
Além do mais, estudos publicados que têm
avaliado a eficiência dos métodos alternativos têm revelado que os estudantes
aprendem tão bem quanto, e em alguns casos de forma ainda melhor, do que os
estudantes que utilizam o método tradicional de experimentação animal (TRÉZ,
2009).
Os recursos substitutivos à experimentação animal
trazem vantagens econômicas também: muitas alternativas são baratas quando
comparadas ao gasto com a compra e a manutenção de animais; outras alternativas
requerem um gasto inicial considerável, apresentando, contudo, benefícios do
investimento imediatamente e perspectivas de cobertura dos custos a longo
prazo, pois poupam o gasto exigido com o uso de animais (TRÉZ, 2009).
Exemplos de recursos substitutivos atualmente
disponíveis seguem relacionados a seguir (TRÉZ, 2009):
- Modelos e
Simuladores:
Modelos e simuladores mecânicos são extremamente úteis ao
estudo da anatomia, da fisiologia e da cirurgia. Eles variam de modelos simples
e baratos a equipamentos computadorizados. Modelos mecânicos como simuladores
de circulação sanguínea oferecem uma excelente visão dos processos
fisiológicos, e simuladores de pacientes ligados a computadores e manequins,
assim como controles sofisticados de operações, estão substituindo cada vez
mais a utilização de animais no treinamento médico.
Filmes são baratos, de fácil
obtenção, duradouros e de fácil utilização. Eles oferecem as vantagens da
repetição, da utilização da câmera lenta e da exibição detalhada das imagens em closes. Ademais , a
adição de gráficos, animações e elementos interativos podem potencializar o seu
valor educativo.
- Simulações Computadorizadas e Realidade Virtual:
Alternativas
computadorizadas podem ser altamente interativas e incorporar outros meios,
como filmes. Além disto, o desenvolvimento tecnológico no campo da realidade
virtual têm possibilitado a utilização de técnicas de imagem de alta qualidade
no trabalho de diagnóstico e tratamento de doenças na medicina humana.
- Auto-Experimentação:
Estudantes da área da saúde de
muitas universidades participam ativamente em práticas cuidadosamente
supervisionadas em que eles próprios são amostras para o estudo de fisiologia,
bioquímica e outras disciplinas, em experiências inócuas como ingerir
substâncias como café ou açúcar, administrar diuréticos e utilizar eletrodos externos
para a mensuração da velocidade de sinais nervosos.
Para turmas que necessitam de experiências práticas com
animais, como as de medicina veterinária, tais exigências podem ser supridas de
diversas maneiras humanitárias. Animais que morreram naturalmente ou que
sofreram eutanásia por motivos clínicos podem ser direcionados para o estudo de
anatomia e cirurgia. Já para os casos em que o treino em animais vivos torna-se
necessário, a prática clínica é o método mais recomendado; em alguns cursos de
veterinária, por exemplo, a habilidade cirúrgica é aprendida pelos estudantes
através de operações em pacientes animais cuidadosamente supervisionadas. Outra
alternativa para o estudo de anatomia e técnica operatória em animais é o convênio
de faculdades com fazendas ou clínicas veterinárias, onde animais mortos podem
ser adquiridos para estudo posterior.
- Estudos de Campo
e de Observação:
Animais selvagens e domésticos
oferecem oportunidades para o estudo prático e não invasivo nos ramos da
zoologia, anatomia, fisiologia, etologia, epidemiologia e ecologia, sendo que
tais observações de campo estimulam os estudantes a reconhecerem as suas
responsabilidades sociais e ambientais.
A maioria dos experimentos bioquímicos
envolvendo tecido animal pode ser adequadamente substituída por cultura de
tecidos. Outros métodos “in vitro”, particularmente em toxicologia, podem
utilizar a cultura de microorganismos e células.
- Serviço de Empréstimo de Alternativas:
O sistema de empréstimo de alternativas da
INTERNICHE (www.internichebrasil.org.br) oferece
uma extensa coleção de CD-ROMs, vídeos, modelos e manequins. Professores e
estudantes de qualquer parte do mundo podem adquirir estes itens através deste
sistema de empréstimo.
As vantagens advindas do uso destas alternativas são muitas
(TRÉZ, 2009):
- Economia de tempo: a preparação
dos procedimentos da experimentação animal costuma ser extremamente demorada.
- Possibilidade de melhor
aprendizado: as simulações interativas permitem que o estudante possa repetir
exaustivamente passos ou estágios do experimento, o que não é possível nos
experimentos “in vivo”. Além do que, esta tecnologia não cria a dependência do
laboratório e de pessoal especializado, permitindo que o estudo seja realizado
até mesmo em casa.
- Proporcionar economia: as alternativas são financeiramente viáveis, ao
contrário do que acredita o senso comum, posto que a utilização de animais
implica em grandes gastos com aquisição e manutenção e os recursos substitutivos
possuem um tempo de vida muitas vezes indeterminado, não sendo descartáveis
como os animais usados.
- Comprometimento ético: o oferecimento de alternativas
respeita os princípios éticos, morais e/ou religiosos dos indivíduos que se
opõem à experimentação animal.
No
campo acadêmico e nos centros de pesquisa em geral, costuma preponderar uma
inércia que precisa ser interrompida com a adoção dos diversos métodos
alternativos já disponíveis, dispensando-se então toda e qualquer forma de
experimentação animal, tanto nas instituições de ensino quanto na indústria
(LEVAI, 2004).
Abaixo encontra-se uma outra relação exemplificativa com recursos
alternativos à experimentação animal que podem perfeitamente ajustar-se às
exigências dos legisladores ambientais e ser aplicados no campo do ensino, no
campo da pesquisa e também no campo industrial (LEVAI, 2004):
1) Culturas celulares,
teciduais e de órgãos para utilização na genética, na microbiologia, na
bioquímica, na imunologia, na farmacologia, na radiação, na toxicologia e no
desenvolvimento de vacinas e pesquisas sobre vírus e doenças como o câncer.
2) A cromatografia e a
espectrometria de massa são técnicas que permitem, sem invasão, a identificação
e a atuação de compostos químicos no organismo.
3) A farmacologia e a mecânica quânticas avaliam o metabolismo dos
medicamentos no organismo.
4) Os estudos
epidemiológicos permitem o desenvolvimento da medicina preventiva baseando-se
em dados comparativos e na observação dos processos das doenças.
5) Os estudos clínicos,
por sua vez, oferecem resultados reais de grande importância sobre as
enfermidades de diferentes populações, analisados à luz da estatística.
6) As biópsias e as
necrópsias servem para demonstrar a ação direta de moléstias no organismo.
7) Simulações computadorizadas caracterizando sistemas virtuais servem
para substituir a vivissecção de animais.
8) Modelos matemáticos
funcionam como tradutores analíticos dos processos que transcorrem nos
organismos vivos.
9) As culturas de
bactérias e de protozoários funcionam como alternativas para testes de câncer
utilizando animais e para o preparo de antibióticos.
10) A utilização de
placentas e cordões umbilicais servem para treinamento de técnicas cirúrgicas e
para testes toxicológicos.
11) O teste CAME utiliza
a membrana corialantóide dos ovos de galinha para testar a toxicidade de
substâncias.
A
principal razão que conduz à certeza de que a experimentação animal é o
método-padrão para investigações científicas advém da limitação dos cientistas
ao adotarem-na como única maneira de resolver problemas específicos sem
questionar a sua ética e a sua eficácia (CHAUI, 2004).
Desta forma, deve-se lembrar do aforismo
“Timeo hominem unius libri” (Temei o homem de um único livro) ao
recomendar à comunidade científica que não se acomode aos primeiros impasses e
ignore o progresso e a evolução do saber (SCHANAIDER e SILVA, 2004).
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